Idosos que tenham gordura concentrada na região abdominal e fraqueza muscular estão em maior risco para uma perda acentuada na velocidade de caminhada. O alerta vem de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos em parceria com a University College London, na Inglaterra.

Embora seja um processo natural do envelhecimento, perder velocidade na marcha ou na caminhada de forma acentuada – como vista no estudo – pode ocasionar problemas de mobilidade. Aumento no risco de quedas e consequente perda de autonomia do idoso é uma delas, mas também dificuldades de realizar tarefas do dia a dia, como atravessar a rua antes de o semáforo fechar, por exemplo.

Os pesquisadores chegaram aos resultados a partir da análise de dados sobre condições físicas e de velocidade da marcha de 2.294 indivíduos com mais de 60 anos, que integram o estudo populacional English Longitudinal Study of Aging, chamado também de ELSA. Os idosos foram acompanhados por oito anos.

Os dados foram, então, divididos em quatro grupos com pessoas com as seguintes características:

  • Fraqueza muscular e gordura abdominal;
  • Apenas fraqueza muscular;
  • Apenas gordura abdominal;
  • Nenhum dos fatores.

No início das medições, nenhum dos participantes apresentava problemas de mobilidade ou velocidade reduzida. Mas, ao longo dos oito anos de monitoramento, um grupo se destacou.

De acordo com Tiago da Silva Alexandre, professor do departamento de Gerontologia da UFSCar, o declínio da velocidade de marcha só ocorria de forma mais acentuada quando o idoso apresentava duas características associadas: gordura abdominal e a fraqueza muscular. “Isso quer dizer que os idosos que tinham apenas gordura abdominal ou só fraqueza muscular não apresentaram redução da velocidade da caminhada tão acentuada”, explica o professor, em entrevista para a Agência Fapesp.

Foram considerados idosos com obesidade abdominal os homens que tivessem uma circunferência maior que 102 centímetros, e mulheres com mais de 88 centímetros. Com relação à força muscular, os pesquisadores avaliaram a força da pressão da mão dos participantes. Destacavam-se os homens com força inferior a 26 quilos e mulheres com menos de 16 quilos de força.

Lenta caminhada

É esperado que os idosos caminhem em uma velocidade de 0,8 metro por segundo (m/s), ou 2,88 quilômetros por hora (km/h), segundo Roberta de Oliveira Máximo, doutoranda do programa de pós-graduação em Fisioterapia da UFSCar, e autora do estudo.

Nos idosos com a fraqueza muscular e gordura abdominal, porém, os pesquisadores observaram uma perda de 0,15 m/s dentro do período de oito anos.

“Nessa toada, pode chegar um momento em que ele não consegue mais atravessar a rua no tempo de um semáforo”, explica Máximo, à Agência Fapesp. O estudo foi publicado na revista científica Age and Ageing, no início de junho.

Como a gordura afeta a locomoção?

Ao envelhecermos, é natural que o depósito de gordura na região subcutânea migre para a região da barriga – para homens e mulheres. A gordura acumulada ativa uma cascata inflamatória, que acaba consumindo a massa muscular, e diminuindo a força.

“Nos homens, ele é mais comum no abdome, enquanto nas mulheres é na região do quadril e coxas, mas à medida que o hormônio vai embora com a menopausa essa gordura vai se mobilizando para o abdômen também. E é aí que ocorre a cascata inflamatória, pois o acúmulo de gordura abdominal aumenta a inflamação que consome o músculo e reduz a força ao prejudicar também o controle neural dos músculos. O resultado é ter cada vez menos força e mais acúmulo de gordura”, explica Tiago Alexandre, professor de Gerontologia da UFSCar.

Os resultados do estudo servem para guiar os profissionais da saúde aos fatores que podem indicar a perda de velocidade de caminhada nos idosos, e a incluir a medição de gordura abdominal e de fraqueza muscular nas consultas.

“Com esse achado, queremos que mais profissionais de saúde se atentem para esse potencial preditor. Afinal uma parcela importante da população idosa tem fraqueza muscular combinada com aumento de gordura abdominal. E ambos os fatores podem ser revertidos por meio de treinamentos de força e alimentação”, reforça o especialista.

Fonte: https://www.semprefamilia.com.br